Depois daquele dia as coisas nunca mais foram as mesmas. Até lá do alto eu podia ouvir o caos que a cidade havia se tornado. Faltou energia logo depois da explosão, mas carros com alto-falantes nas ruas nos instruíam a permanecer em casa. Meus pais não ousavam chegar muito perto de mim, mas eu escutava seus sussurros. Eles achavam que eu não podia ouvi-los, mas agora que eu não podia mais ver, parecia que a audição estava se tornando minha nova melhor amiga.   Muita gente tinha morrido.  A poeira espalhada pela bomba era radioativa.  A radiação era perigosa.  Muitas pessoas estavam doentes.  Elas provavelmente também iriam morrer.   

Eles discutiam sobre os boatos. Discutiam sobre o porquê de a energia não ter voltado ainda, discutiam sobre água e comida. Eles pareciam não conseguir parar de discutir. Mas o que mais me magoava é que eles discutiam principalmente sobre mim.  Me encolhi na minha cama e chorei. Meus pais estavam com medo de mim e provavelmente iria morrer. Eu achava que já estava acostumada com a indiferença deles, mas ainda não sabia o quanto ela podia doer. Aquilo doía como um murro no estômago, de repente não sabia mais direito como respirar. Mas os dias foram passando e comecei a me sentir melhor, mais forte. Na verdade, me sentia muito bem.

Senti que o mundo não era mais o mesmo, talvez nunca voltasse a ser, então não ousei me lamentar pelas minhas perdas. Todos perderam algo naquele dia e ao menos eu continuava viva. Ainda tinha uma casa, ainda tinha uma família. Aos poucos tive que aprender a me virar sozinha. Minha audição estava cada vez melhor e, de uma forma instintiva, já conseguia identificar os contornos da casa, já precisava cada vez menos da ajuda dos meus pais. Eles tentavam conversar um pouco comigo, mas eu percebia o receio em suas vozes. Era como se pudesse identificar o tom de suas emoções. 

As semanas foram passando, a energia não voltou, e as coisas ainda pareciam um caos lá em baixo. Porém, podíamos notar que o mundo estava cada vez mais silencioso. Não tínhamos mais como assistir as notícias pela televisão, e nem mesmo os telefones funcionavam, mas a rede de boatos não parava de crescer.  Aparentemente algumas pessoas começaram a viver daquilo. Elas corriam atrás informações valiosas e cobravam para repassá-las. Com seus contatos, não era difícil descobrir quem se interessava pelo quê e quanto eles estavam dispostos a pagar por aquilo. A rede se expandiu rapidamente e se tornou cada vez maior. Essas pessoas começaram a ser chamadas de Sussurros.

Escutei entre os Sussurros que a China tinha conseguido tomar o controle do Brasil, apesar de não fazer ideia do aquilo significava. Eu botava a cabeça na janela e tudo continuava escuro, mas podia sentir a diferença nas ruas. Era como se as pessoas estivessem com medo. Como se elas estivesse se escondendo

A noite chegou, e o dia seguinte também. Comecei a chorar de novo e orava todas as noites pelo retorno deles, mas depois de três dias comecei a perder as esperanças. Parte de mim queria acreditar que algo tinha acontecido, mas a outra parte desconfiava que eles nunca pretenderam voltar. Comi alguns restos que consegui achar pelos armários da casa, mas no quinto dia já não aguentava mais a fome. Consumida pelo medo, sabia que não haveria outra opção, em algum momento eu teria que sair de casa. Tomei coragem e abri a porta, andei às cegas pelo hall e comecei a procurar pelos vizinhos que conhecia.

Tateando pelo caminho e imaginando seu contorno em minha mente, tentando lembrar de todas as vezes que eu já estive ali de frente para aqueles apartamentos, escondida entre as pernas dos meus pais. Eu passava as mãos nas paredes à procura da campainha, mas logo percebi que elas não funcionavam mais, então comecei a bater nas portas.  Em algumas casas havia apenas silêncio, em outras eu escutava seus passos hesitantes, mas eles não abriam para mim. Eu batia e chorava e pedia que me ajudassem por favor, mas ninguém parecia se importar. Descia e subia escadas, me preocupando sempre em memorizar em que andar eu estava para não me perder.

A tarefa era excruciantemente lenta, um degrau de cada vez, tateando por todo caminho. Estava cansada e deprimida. Já estava quase desistindo, mas ainda faltava uma porta para bater, a única que eu não queria.  Todos no prédio odiavam o velho Coronel. Ele estava sempre reclamando do barulho, era grosso com as crianças e parecia não respeitar ninguém. Isso também fazia com que fosse alvo das piores brincadeiras, mal posso contar quantas vezes eu e as outras crianças já havíamos ficado de castigo por elas. Mas eu sabia que ele era minha última esperança, então bati. Escutei seus passos lentos atrás da porta e esperei alguns segundos. Eu não tinha mesmo esperança e não ia me humilhar para ele. Comecei a dar meia volta, mas então escutei sua voz rouca e fraca