O resto do dia correu tranquilamente, não conversamos enquanto estávamos nas ruas, mas andamos lado a lado, evitando avenidas principais e por sorte não esbarramos com ninguém. Formávamos um bom time, mas por mais que eu me sentisse à vontade ao seu lado, eu fazia questão de me lembrar de não baixar a guarda. Parece que eu ainda podia escutar a voz do Coronel na minha cabeça me dizendo que não deixasse ninguém ver as minhas fraquezas. No fim da tarde eu já estava empapada de suor, com minhas roupas grudadas no corpo e louca para me deitar. Quando eu ia sugerir que parássemos para descansar, Cauã pegou minha mão e começou a me puxar na direção de um prédio.
– Venha, quero te mostrar uma coisa. Ah tá, como se eu fosse conseguir ver. Então começamos a subir os degraus. Muitos degraus. Eu já estava ficando tonta e ele parecia não estar perto de parar.
– Essa coisa que você quer que eu veja, é em que andar?
– No último.
– No último? Mas esse prédio é enorme! Ele parou e se virou para mim, ainda segurando minha mão.
– O que quero te mostrar é muito legal, então você tem duas opções. Ou fica aqui e me espera voltar, ou então deixa de ser molenga e sobe comigo. Mas que merda, claro que não vou ficar aqui esperando ele. Começo a subir de novo com a cara emburrada e ele sorri. Eu aperto a mandíbula com força, não vou lhe dar essa satisfação de me fazer sorrir agora. Continuamos subindo por décadas, até que finalmente chegamos à cobertura. A porta está emperrada, mas ele empurra algumas vezes e consegue forçá-la. Antes de entrarmos ele me pede para fechar os olhos. Tenho vontade de responder que não vai fazer muita diferença, mas obedeço. Ele me puxa devagar e me faz sentar em cima de algo, depois senta ao meu lado, mas não solta minha mão.
– Pode abrir. Então eu abro, e por incrível que pareça, eu vejo. Não é a mesma coisa que ele vê, mas é algo especial. Vejo o contorno dos prédios e casas lá em baixo, como uma linha borrada do horizonte, e bem no meio uma grande bola de fogo vermelha. Não consigo enxergar muitas cores, é tudo meio alaranjado ou amarelado. Mas quando olho para o sol sempre vejo o mesmo vermelho. Sua cor é viva e quente, e parece derreter minha alma por dentro. Por um instante eu deixo a barreira cair e aprecio em silêncio enquanto o sol se põe. Nossas mãos ainda estão juntas quando o espetáculo acaba, então ele se inclina para trás e se deita. O que será que ele está querendo de mim? Ele me trouxe até aqui em cima para ver o pôr do sol? Se ele estiver achando que vai se dar bem só por causa disso está redondamente enganado. Continuo sentada, ele respira fundo e solta minha mão. Acho que desistiu. Escuto ele pegar algo dentro da mochila e depois um clique, clique. Não, não pode ser. Música.

Me sinto só,
Mas quem é que nunca se sentiu assim
Procurando um caminho pra seguir,
Uma direção – respostas.
Um minuto para o fim do mundo,
Toda sua vida em 60 segundos
Uma volta no ponteiro do relógio,
pra viver.

É uma música do CPM 22, mas como? Faz mais de cinco anos que não escuto música. Desde que a bateria do meu MP3 acabou. Talvez o dele seja a pilhas, mas mesmo assim, elas não são fáceis de achar. E são tão caras. Tenho vontade de questioná-lo. Como ele pode gastar tanto assim com pilhas, só para escutar música? Ou ele tem muito dinheiro ou então é louco. Ou será que ele também as roubou? Para falar a verdade nenhuma das duas opções me parece agradável. Mas ao invés de discutir eu me deito ao seu lado. Isso não é problema meu. Eu só quero aproveitar esse pequeno luxo enquanto posso. Eu escuto ele se mover do meu lado e sinto quando ele bota um dos fones no meu ouvido. Já escureceu, então eu não posso mais ver nada. Tiro os óculos do rosto e fecho os olhos. Depois de um tempo sinto sua mão procurar pela minha. Estou fraca demais, não dá tempo de construir de volta as barreiras antes que ele a segure. Ele começa a acariciar lentamente o meu pulso com seu polegar e minha barriga fica gelada. De novo me permito pensar como uma adolescente comum e imagino como seria se ele me beijasse. Que gosto teria sua boca? Será que ele se importaria por meus lábios estarem tão rachados? Inconscientemente passo a língua por eles, umedecendo-os, e começo a me sentir superconsciente a respeito de mim mesma. Estou tão suja, e provavelmente fedendo.
– Aline?
– Oi.
– Quantos anos você tem? Mas que merda. Por que ele quer saber minha idade? Droga. Devo estar agindo como uma menininha. Mas por que será que ele segurou minha mão? Talvez só sinta falta de contato humano. Eu também sinto.
– Dezessete.
– Hum, isso quer dizer que tinha… Doze? Quando as bombas explodiram?
– É.
– Então por que não sabe ler? Merda, merda, merda, merda! Agora ele deve estar achando que sou algum tipo de idiota. É claro que sei ler, eu adorava ler. E ele acha que sou burra! Devo ser mesmo para ter inventado uma desculpa tão esfarrapada.
– Quer saber, esquece não precisa me contar se não quiser

Ele não parou de acariciar minha mão, mas o silêncio começou a ficar embaraçoso. Bom, não tenho nenhum motivo para desperdiçar uma oportunidade perfeita de conversa. – E você, quantos anos tem? – Vinte e três. Eu tinha dezoito quando aconteceu. Estava acabando o ensino médio, tocava guitarra numa banda de rock. Tinha tudo que um garoto podia querer. De uma hora para outra perdi tudo, inclusive meus pais.
– Sinto muito. Também perdi os meus. Eles foram embora. Sua mão para. Porcaria. Por que eu estou me abrindo assim? Concentra Aline. Esse cara ainda é um estranho, você o conhece a menos de vinte quatro horas e já está de mãos dadas contando toda sua vida? Não aprendeu nada?
– Seus pais deixaram você? Uma criança de doze anos? Ele se vira lentamente de lado, e posso sentir que está observando meu rosto. Mantenho os olhos fechados. Então sinto sua mão afastando meu cabelo do rosto.
– Na verdade não tenho certeza. Eles saíram para arrumar comida e não voltaram mais. Talvez tenha acontecido alguma coisa com eles. Acho que nunca vou saber. Ele passa a mão delicadamente no meu rosto. Eu engulo em seco. Depois ele solta um suspiro e se deita de volta, colocando sua mão de novo na minha.
– O tempo parece estar bom, o que acha de dormir aqui em cima hoje? Está ventando muito, eu tenho certeza de que vamos sentir frio, mas antes que eu possa responder isso a ele escuto uma movimentação e tenho certeza de que ele pegou minha mochila. O que ele está fazendo? Não dá tempo nem de protestar, ele me puxa pela mão e então eu entendo. Ele colocou o meu saco de dormir do lado do dele. Ele está planejando me manter aquecida. Meu Deus. Não faço ideia do que pensar disso, mas quando ele me puxa para seu lado e passa seu braço ao meu redor, posicionando minha cabeça no seu ombro, eu perco a vontade de dizer qualquer coisa. Sua mão acaricia meu braço e a música continua a tocar. Eu não sei se agradeço a Deus ou se peço Sua proteção, mas acho que isso tem um grande potencial para virar um desastre.

Mesmo assim não me mexo. Eu me sinto feliz, me sinto nervosa, me sinto normal, como não me sentia desde que perdi a visão. Seu carinho me teletransporta para outra vida, e não demoro a pegar no sono.