Que existe uma grande corrente materialista no mundo, disso todo mundo sabe. A cada minutos somos bombardeados por uma série de mensagens que nos estimulam a ideia de que ser = ter. Quanto mais você possui coisas, mais bem sucedido você é. Quanto mais caro for o seu traje, mais as pessoas te respeitarão. Quanto mais exclusivo for o seu carro, mais as pessoas se sentirão atraídas por você. Propaganda, artes, folclore, anedotas, enfim, diversos fragmentos da cultura humana acabam propagando essa ideia de que o seu leque de bens móveis ou imóveis é o que mais dita a sua importância no mundo.

Essa convicção, por si só, é fato suficiente para causar uma série de comportamentos ironicamente neuróticos nas pessoas, tendo como exemplo mais clássico aquele workaholic que trabalha muito para ganhar uma fortuna e gasta toda sua fortuna para cuidar da saúde que perdeu trabalhando… ou as pessoas que gostam de animais e acabam contratando dog walkers para conviver com seus bichos de estimação, pois não há tempo para dedicar ao bichinho, embora ter um cachorro seja algo que vá melhorar seu aspecto nesse mundo… Pessoas que criar dívidas para comprar um carro importado, para viverem suas vidas em casas de luxo de variadas cores e tamanhos – casas com piscina, sauna, sala de cinema, pista de dança, pier e closets de dois andares, daqueles que você entra dentro e se perde – mas que não são sequer aproveitadas pois o dono da propriedade precisa trabalhar em 23 cidades ao longo do ano, fechando negócios no mundo inteiro, passando 15 dias do ano em sua casa e o restante em hoteis e jatinhos.

Tenho, logo existo!

Ter, ter, ter. É preciso acumular coisas. Muito mais do que reunir conhecimento, muito mais do que ter experiências e vivências enriquecedoras, precisamos colecionar coisas que não precisamos para que possamos sentir o mundo nos valorizar. Tudo muito de fora pra dentro. Ninguém pensa por um instante em reverter esse jogo de status maluco e começar uma transformação de dentro pra fora.

Esse condicionamento tem criado um apego fortíssimo aos nossos bens. Apego tão grande que leva vidas embora e deixa heranças. Heranças que vão destruir a relação entre os familiares vivos, pois a ganância e a cobiça perdem feio pro amor na hora de acertarmos as contas do espólio. O caminho do colecionador é cheio de conforto, mas também é repleto de armadilhas silenciosas. Há quem diga que muitos espíritos tem dificuldade em desencarnar pelo apego material – seguem vagando nas casas em que moraram, cobiçando os desejos que tiveram em vida.

Como nos livrar do eterno sonho do carro importado e da casa de luxo na praia?

O segredo está no desapego. O simples fato de olhar para as coisas como são: coisas. Coisas não tem uma finalidade em si mesma, elas existem para suprir necessidades: você tem uma casa porque precisa de um lugar seguro para morar, você tem um carro porque precisa se locomover da casa para o trabalho, e daí por diante. Você não possui um tênis Nike para se imbuir das características da marca e transformar a sua personalidade em um reflexo dela. Você não deve comprar nada esperando que isso faça de você uma outra pessoa, uma pessoa melhor, mais confiante ou mais preparada. Isso são subterfúgios do teu ego que cria essas armadilhas para evitar que você procure a única coisa que pode ferí-lo pra sempre: o autoconhecimento. Todas essas coisas que preenchem a sua personalidade vão, pouco a pouco, criando uma sequencia de rótulos e etiquetas para a sua personalidade, cristalizando o seu comportamento dentro de uma zona de conforto insossa, que não permite a possibilidade de novas experiências e descobertas profundas. Nada além da satisfação de um novo produto.

Saber abrir mão de tudo que não é necessário para a tua vida é o que mais suaviza o seu momento de morte. Esse é o grande segredo do desapego.