Sinto-me como se fosse o sol. Meu rosto está queimando, derretendo, se desintegrando. Meus lábios estão rachados e posso sentir o gosto do sangue quando passo a língua por eles. Os meus braços e ombros ardem, minhas pernas estão dormentes de exaustão, mas mesmo assim não paro. Eu continuo andando, um passo após o outro, não tenho como voltar atrás.

Faz vinte dias que saí de casa, em Brasília, levando na mochila apenas uma troca de roupa, um saco de dormir, comida e água. A água acabou há dois dias, por mais que tenha tentado economizar, e eu pretendia conseguir mais quando chegasse a Belo Horizonte, mas isso também devia ter acontecido dois dias atrás. Pelo menos ainda tenho comida, se é que se pode chamar isso de comida. Essas barrinhas não têm gosto de nada, mas elas ocupam pouco espaço, são leves e me dão força suficiente para continuar andando.

Não sei por que ainda não cheguei a Belo Horizonte, mas não me permito pensar nem por um segundo que possa ter errado o caminho, isso me tiraria completamente o foco e não conseguiria mais sair do lugar. Sendo assim, continuo andando. Devo chegar lá a qualquer momento. Não que eu esteja ansiosa, nos dias de hoje não é muito agradável estar numa grande capital, mas não tenho escolha. Além disso, também não estou com muita vontade de morrer desidratada. Quando decidi partir sozinha para o Rio de Janeiro sabia dos riscos, só não tinha muitas opções sobrando.

Já faz dois anos que os boatos começaram. Os sussurros diziam que nem todos atingidos pela radiação da bomba eram azarados. Comentavam que alguns sortudos conseguiram fazer mais do que sobreviver, que de alguma forma eles teriam desenvolvido habilidades especiais. Não sei o que dizer quanto a isso, não me sinto particularmente sortuda por ter sobrevivido ao que aconteceu naquele dia.

Parecia ser apenas mais um dia comum quando às 09:13h da manhã todos os canais começaram a noticiar sobre a explosão nuclear que tinha acabado de acontecer em Washington, nos Estados Unidos. O choque foi grande, mas ainda não poderíamos imaginar o quanto nosso pequeno planeta iria mudar em menos de 24h por causa daquele evento. Não demorou nem duas horas para que houvesse retaliação, e a próxima bomba caísse no Iraque.

As alianças se formaram na velocidade da luz, e à medida que outras bombas eram lançadas nos Estados Unidos, vários outros países foram atingidos a cada hora. As escolas liberaram os alunos, os trabalhos foram suspensos, e assim todos assistiram dos seus sofás o mundo ruir. Eu tinha apenas doze anos na época e fui mandada para o meu quarto. Não entendia direito o que estava acontecendo, mas podia sentir a tensão das pessoas. Tentei ficar calma, tentei ser paciente enquanto esperava. Porém, às 16:27h da tarde, estava sentada no beiral da janela olhando a cidade do alto enquanto tentava reproduzir suas formas no meu caderno de desenhos. Enquanto olhava, vi uma luz brilhar lá longe. Observei a luz crescer e se expandir, e não entendi o que via até que escutei o barulho. Ele veio seguido por uma forte rajada de vento que me fez cair no chão do quarto…

Os contornos das paredes começaram a perder a forma como se estivessem se desintegrando. Eu fechei os olhos e fiquei lá deitada no chão frio até a terra parar de tremer, meu ouvido parar de zunir e o mundo parar de girar como um carrossel. O silêncio não durou muito, alguns segundos depois eu já podia ouvir o grito das crianças, o choro das mulheres, as sirenes apitando por toda parte. Abri os olhos lentamente, mas nada aconteceu. Fechei-os novamente e esfreguei, tentando limpar minha visão, mas não adiantou, o mundo continuava escuro.

Levantei devagar e comecei a tatear pelo quarto a procura da porta. Minha respiração ficou pesada e inconstante, o pânico ameaçando tirar o melhor de mim. Eu esticava os braços para frente, tentando não bater em nada, mas mesmo assim esbarrei em vários objetos que agora não podia mais identificar. Pisava com cuidado, sentia como se a qualquer momento pudesse cair num abismo, e a angustia crescia como um monstro morando dentro de mim, devorando a pequenas mordidas pedacinhos da minha alma.

Tentei ouvir os sons ao meu redor para saber onde estava indo, mas o caos das ruas sobrepujava qualquer barulho dentro da minha casa. Gritei, chamando meus pais, mas acho que eles não conseguiam me escutar também. Quando finalmente achei a porta e consegui chegar à sala, pude ouvir o chiado baixo do choro da minha mãe e a voz do meu pai que a consolava.