Categoria: Meu Diário

As coisas do ódio

Ainda odeio o homem com todas as forças do meu coração, mas tenho que admitir que não estaria viva até agora se não fosse por ele. Ele me alimentou, me proveu de informações que conseguia com os Sussurros, me ensinou tudo o que eu precisava saber para sobreviver no caos que o Brasil se tornou.  No início não foi fácil. Conviver com o Coronel era como ser obrigada a me alistar no exército. Eu tinha apenas doze anos, mas ele parecia não se compadecer de mim. Em troca da comida me fazia limpar a casa e se eu deixasse qualquer sujeirinha que fosse, diminuía a quantidade de alimento que me fornecia. Como poderia saber onde tinha sujeira? Eu estava cega! Mas isso não parecia fazer a menor diferença para ele. O tempo foi passando e aprendi a limpar a casa com perfeição, parecia que meus sentidos ficavam cada vez mais aguçados. Na verdade, o tempo me trouxe muitos bônus. Não tinha ideia do que estava acontecendo comigo. Eu continuava cega. Não conseguia desenhar, nem ler, nem ver o rosto das pessoas. Mas de alguma forma conseguia distinguir, cada vez mais claramente, os contornos ao meu redor. Já sabia quando alguém estava se aproximando de mim e não esbarrava mais em nada. Conseguia perceber a forma das coisas de maneira tão única e especial que chegava a ficar emocionada. Era como um presente de consolo. Não faço ideia de como explicar isso, mas se fosse comparar a algo, seria mais ou menos como usar óculos de visão noturna, só que ao contrário. Na verdade, minha habilidade se intensificava durante o dia, quando a luz solar batia nas coisas a minha volta. Mas de noite, ela era praticamente inexistente. E não foi só isso. Minha audição também continuou a melhorar. Eu podia escutar a pulsação das pessoas, ouvia gritos e choros à distância e conseguia até mesmo escutar conversas sussurradas atrás de portas fechadas. Tentei guardar essas informações só para mim, mas o Coronel era muito perspicaz. Já tinham se passado mais de dois anos desde que eu havia entrado pela porta do seuapartamento, quando ele me pegou observando a cidade da varanda.

Voltei as minhas atividades, mas ele começou a prestar mais atenção em mim. Eu percebia que ele tinha começado a fazer pequenos testes e meditava sobre teorias. Até que um dia ele estava sentado no sofá e acho que cansado de meditar, jogou do nada uma tesoura em minha direção. Vi o objeto rodopiando, vindo diretamente até mim, e imediatamente desviei. Ele ficou me olhando enquanto eu botava a mão no coração e me refazia do susto.
Acho que a partir daquele dia deixei de ser uma empregada para ele e me tornei um projeto pessoal. Mas não pense que isso significa que as coisas melhoraram. Eu continuei fazendo faxina na casa, mas agora, ao invés de descansar no meu tempo livre, fazia exercícios. Ele realmente começou a me treinar. Como se eu estivesse no exército. Uma menina de quatorze anos. E aquilo era um inferno.
Eu me sentia como uma gelatina molenga me arrastando para voltar ao meu apartamento à noite, prestes a se desmanchar em pedacinhos.  Se fizesse qualquer coisa errada ele explodia comigo, me chamava de burra por não conseguir aprender. Dizia que meus pais é que tinham sido espertos por me deixarem para trás. Se eu ousasse chorar ele me mandava embora e me deixava sem comida. Com o tempo, simplesmente parei de me importar com tudo que ele dizia. Criei uma barreira intransponível até o meu coração. Não ia deixar aquele mostro me destruir. Um dia ele trouxe um rapaz para o apartamento e me mandou lutar contra ele. Aquilo foi incrivelmente assustador. Eu conseguia perceber o quanto ele era grande e forte. Não podia acreditar que o Coronel pudesse me obrigar a fazer aquilo. Que terrível lugar era esse que o mundo havia se tornado? É claro que não durei nem um minuto naquela luta. Antes que pudesse desferir ao menos um golpe que tinha aprendido, aquele brutamontes me imobilizou sem nem mesmo derramar uma gota de suor. Fui para casa com fome e me sentindo humilhada.

Quando o mundo não é mais o mesmo

Depois daquele dia as coisas nunca mais foram as mesmas. Até lá do alto eu podia ouvir o caos que a cidade havia se tornado. Faltou energia logo depois da explosão, mas carros com alto-falantes nas ruas nos instruíam a permanecer em casa. Meus pais não ousavam chegar muito perto de mim, mas eu escutava seus sussurros. Eles achavam que eu não podia ouvi-los, mas agora que eu não podia mais ver, parecia que a audição estava se tornando minha nova melhor amiga.   Muita gente tinha morrido.  A poeira espalhada pela bomba era radioativa.  A radiação era perigosa.  Muitas pessoas estavam doentes.  Elas provavelmente também iriam morrer.   

Eles discutiam sobre os boatos. Discutiam sobre o porquê de a energia não ter voltado ainda, discutiam sobre água e comida. Eles pareciam não conseguir parar de discutir. Mas o que mais me magoava é que eles discutiam principalmente sobre mim.  Me encolhi na minha cama e chorei. Meus pais estavam com medo de mim e provavelmente iria morrer. Eu achava que já estava acostumada com a indiferença deles, mas ainda não sabia o quanto ela podia doer. Aquilo doía como um murro no estômago, de repente não sabia mais direito como respirar. Mas os dias foram passando e comecei a me sentir melhor, mais forte. Na verdade, me sentia muito bem.

Senti que o mundo não era mais o mesmo, talvez nunca voltasse a ser, então não ousei me lamentar pelas minhas perdas. Todos perderam algo naquele dia e ao menos eu continuava viva. Ainda tinha uma casa, ainda tinha uma família. Aos poucos tive que aprender a me virar sozinha. Minha audição estava cada vez melhor e, de uma forma instintiva, já conseguia identificar os contornos da casa, já precisava cada vez menos da ajuda dos meus pais. Eles tentavam conversar um pouco comigo, mas eu percebia o receio em suas vozes. Era como se pudesse identificar o tom de suas emoções. 

As semanas foram passando, a energia não voltou, e as coisas ainda pareciam um caos lá em baixo. Porém, podíamos notar que o mundo estava cada vez mais silencioso. Não tínhamos mais como assistir as notícias pela televisão, e nem mesmo os telefones funcionavam, mas a rede de boatos não parava de crescer.  Aparentemente algumas pessoas começaram a viver daquilo. Elas corriam atrás informações valiosas e cobravam para repassá-las. Com seus contatos, não era difícil descobrir quem se interessava pelo quê e quanto eles estavam dispostos a pagar por aquilo. A rede se expandiu rapidamente e se tornou cada vez maior. Essas pessoas começaram a ser chamadas de Sussurros.

Escutei entre os Sussurros que a China tinha conseguido tomar o controle do Brasil, apesar de não fazer ideia do aquilo significava. Eu botava a cabeça na janela e tudo continuava escuro, mas podia sentir a diferença nas ruas. Era como se as pessoas estivessem com medo. Como se elas estivesse se escondendo

A noite chegou, e o dia seguinte também. Comecei a chorar de novo e orava todas as noites pelo retorno deles, mas depois de três dias comecei a perder as esperanças. Parte de mim queria acreditar que algo tinha acontecido, mas a outra parte desconfiava que eles nunca pretenderam voltar. Comi alguns restos que consegui achar pelos armários da casa, mas no quinto dia já não aguentava mais a fome. Consumida pelo medo, sabia que não haveria outra opção, em algum momento eu teria que sair de casa. Tomei coragem e abri a porta, andei às cegas pelo hall e comecei a procurar pelos vizinhos que conhecia.

Tateando pelo caminho e imaginando seu contorno em minha mente, tentando lembrar de todas as vezes que eu já estive ali de frente para aqueles apartamentos, escondida entre as pernas dos meus pais. Eu passava as mãos nas paredes à procura da campainha, mas logo percebi que elas não funcionavam mais, então comecei a bater nas portas.  Em algumas casas havia apenas silêncio, em outras eu escutava seus passos hesitantes, mas eles não abriam para mim. Eu batia e chorava e pedia que me ajudassem por favor, mas ninguém parecia se importar. Descia e subia escadas, me preocupando sempre em memorizar em que andar eu estava para não me perder.

A tarefa era excruciantemente lenta, um degrau de cada vez, tateando por todo caminho. Estava cansada e deprimida. Já estava quase desistindo, mas ainda faltava uma porta para bater, a única que eu não queria.  Todos no prédio odiavam o velho Coronel. Ele estava sempre reclamando do barulho, era grosso com as crianças e parecia não respeitar ninguém. Isso também fazia com que fosse alvo das piores brincadeiras, mal posso contar quantas vezes eu e as outras crianças já havíamos ficado de castigo por elas. Mas eu sabia que ele era minha última esperança, então bati. Escutei seus passos lentos atrás da porta e esperei alguns segundos. Eu não tinha mesmo esperança e não ia me humilhar para ele. Comecei a dar meia volta, mas então escutei sua voz rouca e fraca

Como me sinto…

Sinto-me como se fosse o sol. Meu rosto está queimando, derretendo, se desintegrando. Meus lábios estão rachados e posso sentir o gosto do sangue quando passo a língua por eles. Os meus braços e ombros ardem, minhas pernas estão dormentes de exaustão, mas mesmo assim não paro. Eu continuo andando, um passo após o outro, não tenho como voltar atrás.

Faz vinte dias que saí de casa, em Brasília, levando na mochila apenas uma troca de roupa, um saco de dormir, comida e água. A água acabou há dois dias, por mais que tenha tentado economizar, e eu pretendia conseguir mais quando chegasse a Belo Horizonte, mas isso também devia ter acontecido dois dias atrás. Pelo menos ainda tenho comida, se é que se pode chamar isso de comida. Essas barrinhas não têm gosto de nada, mas elas ocupam pouco espaço, são leves e me dão força suficiente para continuar andando.

Não sei por que ainda não cheguei a Belo Horizonte, mas não me permito pensar nem por um segundo que possa ter errado o caminho, isso me tiraria completamente o foco e não conseguiria mais sair do lugar. Sendo assim, continuo andando. Devo chegar lá a qualquer momento. Não que eu esteja ansiosa, nos dias de hoje não é muito agradável estar numa grande capital, mas não tenho escolha. Além disso, também não estou com muita vontade de morrer desidratada. Quando decidi partir sozinha para o Rio de Janeiro sabia dos riscos, só não tinha muitas opções sobrando.

Já faz dois anos que os boatos começaram. Os sussurros diziam que nem todos atingidos pela radiação da bomba eram azarados. Comentavam que alguns sortudos conseguiram fazer mais do que sobreviver, que de alguma forma eles teriam desenvolvido habilidades especiais. Não sei o que dizer quanto a isso, não me sinto particularmente sortuda por ter sobrevivido ao que aconteceu naquele dia.

Parecia ser apenas mais um dia comum quando às 09:13h da manhã todos os canais começaram a noticiar sobre a explosão nuclear que tinha acabado de acontecer em Washington, nos Estados Unidos. O choque foi grande, mas ainda não poderíamos imaginar o quanto nosso pequeno planeta iria mudar em menos de 24h por causa daquele evento. Não demorou nem duas horas para que houvesse retaliação, e a próxima bomba caísse no Iraque.

As alianças se formaram na velocidade da luz, e à medida que outras bombas eram lançadas nos Estados Unidos, vários outros países foram atingidos a cada hora. As escolas liberaram os alunos, os trabalhos foram suspensos, e assim todos assistiram dos seus sofás o mundo ruir. Eu tinha apenas doze anos na época e fui mandada para o meu quarto. Não entendia direito o que estava acontecendo, mas podia sentir a tensão das pessoas. Tentei ficar calma, tentei ser paciente enquanto esperava. Porém, às 16:27h da tarde, estava sentada no beiral da janela olhando a cidade do alto enquanto tentava reproduzir suas formas no meu caderno de desenhos. Enquanto olhava, vi uma luz brilhar lá longe. Observei a luz crescer e se expandir, e não entendi o que via até que escutei o barulho. Ele veio seguido por uma forte rajada de vento que me fez cair no chão do quarto…

Os contornos das paredes começaram a perder a forma como se estivessem se desintegrando. Eu fechei os olhos e fiquei lá deitada no chão frio até a terra parar de tremer, meu ouvido parar de zunir e o mundo parar de girar como um carrossel. O silêncio não durou muito, alguns segundos depois eu já podia ouvir o grito das crianças, o choro das mulheres, as sirenes apitando por toda parte. Abri os olhos lentamente, mas nada aconteceu. Fechei-os novamente e esfreguei, tentando limpar minha visão, mas não adiantou, o mundo continuava escuro.

Levantei devagar e comecei a tatear pelo quarto a procura da porta. Minha respiração ficou pesada e inconstante, o pânico ameaçando tirar o melhor de mim. Eu esticava os braços para frente, tentando não bater em nada, mas mesmo assim esbarrei em vários objetos que agora não podia mais identificar. Pisava com cuidado, sentia como se a qualquer momento pudesse cair num abismo, e a angustia crescia como um monstro morando dentro de mim, devorando a pequenas mordidas pedacinhos da minha alma.

Tentei ouvir os sons ao meu redor para saber onde estava indo, mas o caos das ruas sobrepujava qualquer barulho dentro da minha casa. Gritei, chamando meus pais, mas acho que eles não conseguiam me escutar também. Quando finalmente achei a porta e consegui chegar à sala, pude ouvir o chiado baixo do choro da minha mãe e a voz do meu pai que a consolava.

A sombra que me acompanha

Um navio de carga iria percorrer portos ao redor de todo o mundo dali a um ano, isso daria tempo para as pessoas se organizarem e conseguirem chegar lá na data, mas só poderiam entrar no navio pessoas que provassem ter alguma habilidade. Isso significava que eu estava sozinha nessa. Eu não tinha a menor chance. Como eu iria conseguir chegar ao Rio de Janeiro sozinha? Eu estava cega! Eu não podia ler placas, mapas e nem tinha dinheiro para que alguém me ajudasse a chegar lá. Implorei para que o Coronel me levasse, mas ele simplesmente disse: — Sem chances. Se eu queria me livrar dele e do governo, iria ter que aprender a me virar sozinha lá fora, e isso ele estava disposto a fazer por mim, então me ensinou tudo o que sei. Pegou um mapa, traçou minha rota e me fez decorar cada passo do caminho. Sair de Brasília seria fácil, mas quando eu estivesse na estrada não teria pelo que me guiar. Então ele me ensinou a caminhar, me fazendo aprender a andar numa velocidade constante de 4 km/h, o que não é nada fácil. Arrumou um velho relógio digital para mim que apitava a cada hora e assim eu poderia calcular quantos quilômetros eu tinha andado.  Eu sabia que horas deveria começar a andar todos os dias, quantas horas precisava andar, quantos quilômetros estava andando e quando ia encontrar bifurcações e por onde seguir. Às quatro da tarde eu deveria parar para encontrar abrigo antes do sol se pôr. Não dava para fazer muito à noite, neste horário eu era basicamente o que deveria ser desde o início, apenas uma menina cega. Não era um plano perfeito, muito menos preciso ou livre de erros, mas passamos um ano nos preparando para isso e eu saí de Brasília com uma semana de folga para completar minha jornada antes que o navio chegasse ao Rio.

Meu relógio apitou anunciando que já eram quatro horas da tarde. Ainda nenhum sinal de prédios à frente, mas eu não podia estar muito longe de Belo Horizonte. Andei mais um pouco até achar um velho barraco abandonado perto da estrada.  Tirei meu saco de dormir da mochila, tirei os óculos do rosto e as botas dos pés. Comi uma barrinha sem gosto, não porque queria, mas porque precisava, depois fiz uma breve oração, pedindo que Deus me desse as forças que já não tinha mais e me deitei para dormir. Tenho certeza de que não se passaram nem cinco minutos antes que eu pegasse no sono. No dia seguinte o relógio apitava, me avisando que já eram sete horas. Sentia cada ligamento do meu corpo doer enquanto me mexia, mas já devia estar acostumada, sempre que paro para descansar me sinto ainda pior no dia seguinte. Ainda tinha uma hora livre antes de ter que começar a andar de novo, então decidi dar uma vasculhada pelo barraco, ver se achava algo útil. A minúscula cozinha fedia, como se um bicho tivesse morrido ali dentro, o que provavelmente era verdade. Mesmo assim comecei a abrir os armários, à procura de alguma comida com gosto para variar um pouco. Não achei nada nos armários, mas ao abrir a geladeira tive uma feliz surpresa, e não foi o cheiro fétido que saia de dentro dela. Achei uma lata. De quê? Não faço ideia, mas essas comidas enlatadas demoram anos para estragar, então mesmo que esteja vencida, não estou nem aí. Abri e fechei gavetas até encontrar um abridor. Quando terminei de assassinar a lata e a aproximei do meu nariz, senti um cheiro único, maravilhoso, que não sentia há muito tempo. Feijão! Não fiz questão nem de procurar por uma colher, simplesmente virei a lata na boca, apreciando cada grãozinho. Você provavelmente não iria achar tão gostoso assim, mas depois de passar semanas comendo barrinhas sabor isopor, aquilo ali era um manjar dos deuses! Meu estômago reclamava, depois de tanto tempo sem receber comida de verdade, e eu tive que ir correndo até o banheiro. Quando acabei, apertei a descarga, só por força do hábito, mas acabei me assustando ao ver que ela realmente funcionava. Água encanada?

Esse realmente deve ser um dia de sorte, comida e água dando sopa no mesmo local. Tirei as roupas imediatamente e liguei o chuveiro. Não tinha sabonete nem shampoo, mas eu podia sentir as camadas de poeira acumuladas sobre a minha pele se desintegrando na água gelada. Aproveitei para lavar minhas roupas e coloquei a calça jeans e camisa regata extras que tinha na minha mochila. Calcei as botas, coloquei minhas coisas de volta na mochila e os óculos no rosto. Fui para o lado de fora, andei até a estrada e esperei o relógio apitar. Depois de algumas horas andando eu nem sentia mais minhas pernas se moverem. Era como apertar o botão do piloto automático e deixar o corpo fazer o resto. Minha única preocupação era ignorar a dor. Já eram mais de onze horas da manhã quando comecei a pressentir algo esquisito. Agucei meus ouvidos e prestei bastante atenção. Pequenos gravetos se quebravam ao lado direito da estrada, seu ritmo parecia ser constante, me acompanhando. Eu espero que seja um bicho. Eu espero que seja um bicho. Eu espero que seja um bicho. Eu espero que seja um bicho. Eu espero que seja um bicho. Eu espero que seja um bicho. Eu espero que seja um bicho. Virei a cabeça lentamente para o lado. Na linha das árvores que margeavam a estrada pude ver claramente os contornos de um corpo humano enquanto ele se escondia atrás de um tronco. Apesar do sol de rachar, o meu corpo gelou. Eu tinha visto algumas pessoas nas ruas quando saí de Brasília, mas aqui estou completamente sozinha na estrada. O lado positivo é que ele é apenas um, e se quisesse me agredir provavelmente não estaria se escondendo. Mas isso não significa que ele não pode estar querendo me roubar ou algo do tipo, pode estar só esperando pelo momento certo para dar o bote. Não tenho quase nada, mas não posso deixar que alguém tire de mim o pouco que tenho. Continuo andando e decido não parar para comer, simplesmente tiro uma barrinha da bolsa e enfio na boca mal me dando ao trabalho de mastigar. A pessoa continua me acompanhando, e depois de algumas horas consigo ver sua silhueta com mais clareza…

Passos e sussurros

Ouvi passos pela casa, e pequenos sussurros. Eu esperei e esperei, até que finalmente senti algo na minha mão, mas a textura não era a da sua pele macia. Ela tinha botado uma luva. Sei que estava toda suja de poeira e que minha mãe estava assustada, mas tudo que precisava era que ela me confortasse nos seus braços, como fazia quando eu ainda era uma garotinha. Agora suas luvas pareciam uma barreira entre nós e eu me sentia verdadeiramente rejeitada, apenas uma obrigação e um peso na sua vida. Tive que apertar os olhos com força para impedir que mais lágrimas caíssem.

Ela me levou até embaixo do chuveiro e esperou enquanto eu tirava as roupas. Abriu a água e colocou o sabonete em minha mão. Depois que acabei me enrolou numa toalha grossa e me levou até o quarto. Sentei na cama e escutei enquanto gavetas e portas abriam e fechavam. Senti algo sendo botado ao meu lado e sua voz suave me dizendo que eu me vestisse.  Ela parecia estar tentando se controlar, como se pudesse simplesmente pirar a qualquer momento se mais alguma coisa desse errado. Coloquei a roupa, me esforçando para aguentar firme e ser forte por ela, mesmo estando completamente apavorada. Ela me ajudou a deitar na cama e saiu do quarto silenciosamente.

As loucuras da insônia

Não consegui dormir mais pelo resto da noite, então quando o sol raiou e a luz entrou pela janela me sentei, encostando o corpo na parede, e fiquei observando a silhueta dele descendo e subindo enquanto respirava pesadamente. Eu sabia que não podia confiar neste desconhecido, provavelmente eu estava cometendo um erro terrível do qual iria me arrepender amargamente, mas de alguma forma era reconfortante poder sentir a presença de outra pessoa que não fosse o Coronel. Meu relógio apitou às sete horas da manhã, informando que era hora de levantar, mas nem me mexi. Agora que tenho um guia posso relaxar com o horário, pelo menos por alguns dias. Continuei observando Cauã e me peguei imaginando como seria a vida se eu tivesse tido a oportunidade de ser uma adolescente normal. Fiquei imaginando quantos anos ele teria e como seria o seu rosto. Será que ele era bonito?

– Você vai ficar aí me encarando por quanto tempo? Droga. Não percebi que ele tinha acordado. Calço minha bota, levanto e começo a guardar minhas coisas de volta na mochila. Tiro meus óculos de dentro e coloco no rosto.
– E então, vamos?
– Calma aí linda, eu não sou uma pessoa muito matinal sabe? Pois é, já não me sinto mais reconfortada com sua presença. Gostava mais dele quando estava dormindo. Fecho a cara e saio andando do quarto.
– Bom dia pra você também estressadinha. Vou até a cozinha e começo a procurar algo para comer, mas não consigo achar nada. Maravilha. Sento do balcão e tiro uma barrinha da minha mochila.
– Sério que você aguenta comer isso?
– Ele está encostado na parede de braços cruzados olhando para mim.
– E você tem alguma opção?
– Na verdade tenho.

Ele pega a mochila e vai até o balcão, tira algo de dentro, remexe em algumas gavetas e começa a cortar em pedaços. Não faço ideia do que seja, e tenho até medo de perguntar.
– Caso esteja se perguntando, é coelho.
– Como conseguiu isso?
– Minha barriga se rebela e começa a roncar com a possibilidade de comer carne de verdade. Ele ri.
– Eu cacei.
– Você caçou?
– Até eu consigo ouvir o espanto na minha voz.
– Aham. Não é tão difícil quanto parece. Depois é só separar os pedaços e salgar para conservar.
– E como você vai cozinhar isso?
– A maioria das casas ainda tem gás no botijão, eu só preciso de um isqueiro para acender.
– Para provar, ele vai até o fogão e o liga.
– Viu? Ele procura nos armários até achar uma panela, pega uma garrafa de água na mochila, e joga dentro dela junto com a carne. Depois tira mais alguma coisa de dentro e começa a cortar de novo.
– Os legumes eu roubei.
– Abro a boca para responder, mas ele me interrompe antes que eu possa começar.
– E nem vem dar uma de moralista, ninguém vai nem notar. Não sei se ele tem razão, mas a carne começa a cheirar, então prefiro ficar calada. Ele joga os legumes dentro da panela junto com a carne e se senta no balcão ao meu lado. Minha barriga ronca de novo, para minha vergonha.
– E então, quanto tempo faz? Olho para ele sem entender a pergunta.
– Quanto tempo faz o que?
– Que não come comida de verdade, dessas que não vem em latas.
– Muito tempo. Alguns anos. Ele não responde por um tempo, fica apenas olhando para o meu rosto.
– Sorte sua que não sou muito bom cozinheiro, se não acho que você não ia aguentar. Sabe como é, muito prazer degustativo. Talvez tivesse um infarto.

Viro meu rosto na direção dele, nem sei mais se ele está falando sério. Aos poucos um sorriso começa a se insinuar no meu rosto, e ele ri também. Faz tanto tempo que alguém não brinca comigo assim, eu nem lembrava como era. Acho que eu não lembrava como era sorrir. É bom. Eu gosto disso. Abaixo a cabeça e espero o momento passar. Ele percebe a deixa, porque se levanta e vai procurar por pratos para nos servir. Quando finalmente estende o prato na minha direção eu estico o braço para pegar, mas ele puxa de volta.
– Como se diz? Fala sério, ele acha mesmo que vou pedir por favor?
– Vai te danar. Desço do balcão e viro de costas, mas ele começa a rir e coloca o prato na minha frente. E então lá se vai meu segundo sorriso em apenas um dia. Ele ainda é um idiota, mas é um idiota com comida, e por algum motivo misterioso, ele me faz sorrir.

Música tocando no peito

O resto do dia correu tranquilamente, não conversamos enquanto estávamos nas ruas, mas andamos lado a lado, evitando avenidas principais e por sorte não esbarramos com ninguém. Formávamos um bom time, mas por mais que eu me sentisse à vontade ao seu lado, eu fazia questão de me lembrar de não baixar a guarda. Parece que eu ainda podia escutar a voz do Coronel na minha cabeça me dizendo que não deixasse ninguém ver as minhas fraquezas. No fim da tarde eu já estava empapada de suor, com minhas roupas grudadas no corpo e louca para me deitar. Quando eu ia sugerir que parássemos para descansar, Cauã pegou minha mão e começou a me puxar na direção de um prédio.
– Venha, quero te mostrar uma coisa. Ah tá, como se eu fosse conseguir ver. Então começamos a subir os degraus. Muitos degraus. Eu já estava ficando tonta e ele parecia não estar perto de parar.
– Essa coisa que você quer que eu veja, é em que andar?
– No último.
– No último? Mas esse prédio é enorme! Ele parou e se virou para mim, ainda segurando minha mão.
– O que quero te mostrar é muito legal, então você tem duas opções. Ou fica aqui e me espera voltar, ou então deixa de ser molenga e sobe comigo. Mas que merda, claro que não vou ficar aqui esperando ele. Começo a subir de novo com a cara emburrada e ele sorri. Eu aperto a mandíbula com força, não vou lhe dar essa satisfação de me fazer sorrir agora. Continuamos subindo por décadas, até que finalmente chegamos à cobertura. A porta está emperrada, mas ele empurra algumas vezes e consegue forçá-la. Antes de entrarmos ele me pede para fechar os olhos. Tenho vontade de responder que não vai fazer muita diferença, mas obedeço. Ele me puxa devagar e me faz sentar em cima de algo, depois senta ao meu lado, mas não solta minha mão.
– Pode abrir. Então eu abro, e por incrível que pareça, eu vejo. Não é a mesma coisa que ele vê, mas é algo especial. Vejo o contorno dos prédios e casas lá em baixo, como uma linha borrada do horizonte, e bem no meio uma grande bola de fogo vermelha. Não consigo enxergar muitas cores, é tudo meio alaranjado ou amarelado. Mas quando olho para o sol sempre vejo o mesmo vermelho. Sua cor é viva e quente, e parece derreter minha alma por dentro. Por um instante eu deixo a barreira cair e aprecio em silêncio enquanto o sol se põe. Nossas mãos ainda estão juntas quando o espetáculo acaba, então ele se inclina para trás e se deita. O que será que ele está querendo de mim? Ele me trouxe até aqui em cima para ver o pôr do sol? Se ele estiver achando que vai se dar bem só por causa disso está redondamente enganado. Continuo sentada, ele respira fundo e solta minha mão. Acho que desistiu. Escuto ele pegar algo dentro da mochila e depois um clique, clique. Não, não pode ser. Música.

Me sinto só,
Mas quem é que nunca se sentiu assim
Procurando um caminho pra seguir,
Uma direção – respostas.
Um minuto para o fim do mundo,
Toda sua vida em 60 segundos
Uma volta no ponteiro do relógio,
pra viver.

É uma música do CPM 22, mas como? Faz mais de cinco anos que não escuto música. Desde que a bateria do meu MP3 acabou. Talvez o dele seja a pilhas, mas mesmo assim, elas não são fáceis de achar. E são tão caras. Tenho vontade de questioná-lo. Como ele pode gastar tanto assim com pilhas, só para escutar música? Ou ele tem muito dinheiro ou então é louco. Ou será que ele também as roubou? Para falar a verdade nenhuma das duas opções me parece agradável. Mas ao invés de discutir eu me deito ao seu lado. Isso não é problema meu. Eu só quero aproveitar esse pequeno luxo enquanto posso. Eu escuto ele se mover do meu lado e sinto quando ele bota um dos fones no meu ouvido. Já escureceu, então eu não posso mais ver nada. Tiro os óculos do rosto e fecho os olhos. Depois de um tempo sinto sua mão procurar pela minha. Estou fraca demais, não dá tempo de construir de volta as barreiras antes que ele a segure. Ele começa a acariciar lentamente o meu pulso com seu polegar e minha barriga fica gelada. De novo me permito pensar como uma adolescente comum e imagino como seria se ele me beijasse. Que gosto teria sua boca? Será que ele se importaria por meus lábios estarem tão rachados? Inconscientemente passo a língua por eles, umedecendo-os, e começo a me sentir superconsciente a respeito de mim mesma. Estou tão suja, e provavelmente fedendo.
– Aline?
– Oi.
– Quantos anos você tem? Mas que merda. Por que ele quer saber minha idade? Droga. Devo estar agindo como uma menininha. Mas por que será que ele segurou minha mão? Talvez só sinta falta de contato humano. Eu também sinto.
– Dezessete.
– Hum, isso quer dizer que tinha… Doze? Quando as bombas explodiram?
– É.
– Então por que não sabe ler? Merda, merda, merda, merda! Agora ele deve estar achando que sou algum tipo de idiota. É claro que sei ler, eu adorava ler. E ele acha que sou burra! Devo ser mesmo para ter inventado uma desculpa tão esfarrapada.
– Quer saber, esquece não precisa me contar se não quiser

Ele não parou de acariciar minha mão, mas o silêncio começou a ficar embaraçoso. Bom, não tenho nenhum motivo para desperdiçar uma oportunidade perfeita de conversa. – E você, quantos anos tem? – Vinte e três. Eu tinha dezoito quando aconteceu. Estava acabando o ensino médio, tocava guitarra numa banda de rock. Tinha tudo que um garoto podia querer. De uma hora para outra perdi tudo, inclusive meus pais.
– Sinto muito. Também perdi os meus. Eles foram embora. Sua mão para. Porcaria. Por que eu estou me abrindo assim? Concentra Aline. Esse cara ainda é um estranho, você o conhece a menos de vinte quatro horas e já está de mãos dadas contando toda sua vida? Não aprendeu nada?
– Seus pais deixaram você? Uma criança de doze anos? Ele se vira lentamente de lado, e posso sentir que está observando meu rosto. Mantenho os olhos fechados. Então sinto sua mão afastando meu cabelo do rosto.
– Na verdade não tenho certeza. Eles saíram para arrumar comida e não voltaram mais. Talvez tenha acontecido alguma coisa com eles. Acho que nunca vou saber. Ele passa a mão delicadamente no meu rosto. Eu engulo em seco. Depois ele solta um suspiro e se deita de volta, colocando sua mão de novo na minha.
– O tempo parece estar bom, o que acha de dormir aqui em cima hoje? Está ventando muito, eu tenho certeza de que vamos sentir frio, mas antes que eu possa responder isso a ele escuto uma movimentação e tenho certeza de que ele pegou minha mochila. O que ele está fazendo? Não dá tempo nem de protestar, ele me puxa pela mão e então eu entendo. Ele colocou o meu saco de dormir do lado do dele. Ele está planejando me manter aquecida. Meu Deus. Não faço ideia do que pensar disso, mas quando ele me puxa para seu lado e passa seu braço ao meu redor, posicionando minha cabeça no seu ombro, eu perco a vontade de dizer qualquer coisa. Sua mão acaricia meu braço e a música continua a tocar. Eu não sei se agradeço a Deus ou se peço Sua proteção, mas acho que isso tem um grande potencial para virar um desastre.

Mesmo assim não me mexo. Eu me sinto feliz, me sinto nervosa, me sinto normal, como não me sentia desde que perdi a visão. Seu carinho me teletransporta para outra vida, e não demoro a pegar no sono.