Não consegui dormir mais pelo resto da noite, então quando o sol raiou e a luz entrou pela janela me sentei, encostando o corpo na parede, e fiquei observando a silhueta dele descendo e subindo enquanto respirava pesadamente. Eu sabia que não podia confiar neste desconhecido, provavelmente eu estava cometendo um erro terrível do qual iria me arrepender amargamente, mas de alguma forma era reconfortante poder sentir a presença de outra pessoa que não fosse o Coronel. Meu relógio apitou às sete horas da manhã, informando que era hora de levantar, mas nem me mexi. Agora que tenho um guia posso relaxar com o horário, pelo menos por alguns dias. Continuei observando Cauã e me peguei imaginando como seria a vida se eu tivesse tido a oportunidade de ser uma adolescente normal. Fiquei imaginando quantos anos ele teria e como seria o seu rosto. Será que ele era bonito?

– Você vai ficar aí me encarando por quanto tempo? Droga. Não percebi que ele tinha acordado. Calço minha bota, levanto e começo a guardar minhas coisas de volta na mochila. Tiro meus óculos de dentro e coloco no rosto.
– E então, vamos?
– Calma aí linda, eu não sou uma pessoa muito matinal sabe? Pois é, já não me sinto mais reconfortada com sua presença. Gostava mais dele quando estava dormindo. Fecho a cara e saio andando do quarto.
– Bom dia pra você também estressadinha. Vou até a cozinha e começo a procurar algo para comer, mas não consigo achar nada. Maravilha. Sento do balcão e tiro uma barrinha da minha mochila.
– Sério que você aguenta comer isso?
– Ele está encostado na parede de braços cruzados olhando para mim.
– E você tem alguma opção?
– Na verdade tenho.

Ele pega a mochila e vai até o balcão, tira algo de dentro, remexe em algumas gavetas e começa a cortar em pedaços. Não faço ideia do que seja, e tenho até medo de perguntar.
– Caso esteja se perguntando, é coelho.
– Como conseguiu isso?
– Minha barriga se rebela e começa a roncar com a possibilidade de comer carne de verdade. Ele ri.
– Eu cacei.
– Você caçou?
– Até eu consigo ouvir o espanto na minha voz.
– Aham. Não é tão difícil quanto parece. Depois é só separar os pedaços e salgar para conservar.
– E como você vai cozinhar isso?
– A maioria das casas ainda tem gás no botijão, eu só preciso de um isqueiro para acender.
– Para provar, ele vai até o fogão e o liga.
– Viu? Ele procura nos armários até achar uma panela, pega uma garrafa de água na mochila, e joga dentro dela junto com a carne. Depois tira mais alguma coisa de dentro e começa a cortar de novo.
– Os legumes eu roubei.
– Abro a boca para responder, mas ele me interrompe antes que eu possa começar.
– E nem vem dar uma de moralista, ninguém vai nem notar. Não sei se ele tem razão, mas a carne começa a cheirar, então prefiro ficar calada. Ele joga os legumes dentro da panela junto com a carne e se senta no balcão ao meu lado. Minha barriga ronca de novo, para minha vergonha.
– E então, quanto tempo faz? Olho para ele sem entender a pergunta.
– Quanto tempo faz o que?
– Que não come comida de verdade, dessas que não vem em latas.
– Muito tempo. Alguns anos. Ele não responde por um tempo, fica apenas olhando para o meu rosto.
– Sorte sua que não sou muito bom cozinheiro, se não acho que você não ia aguentar. Sabe como é, muito prazer degustativo. Talvez tivesse um infarto.

Viro meu rosto na direção dele, nem sei mais se ele está falando sério. Aos poucos um sorriso começa a se insinuar no meu rosto, e ele ri também. Faz tanto tempo que alguém não brinca comigo assim, eu nem lembrava como era. Acho que eu não lembrava como era sorrir. É bom. Eu gosto disso. Abaixo a cabeça e espero o momento passar. Ele percebe a deixa, porque se levanta e vai procurar por pratos para nos servir. Quando finalmente estende o prato na minha direção eu estico o braço para pegar, mas ele puxa de volta.
– Como se diz? Fala sério, ele acha mesmo que vou pedir por favor?
– Vai te danar. Desço do balcão e viro de costas, mas ele começa a rir e coloca o prato na minha frente. E então lá se vai meu segundo sorriso em apenas um dia. Ele ainda é um idiota, mas é um idiota com comida, e por algum motivo misterioso, ele me faz sorrir.