Um navio de carga iria percorrer portos ao redor de todo o mundo dali a um ano, isso daria tempo para as pessoas se organizarem e conseguirem chegar lá na data, mas só poderiam entrar no navio pessoas que provassem ter alguma habilidade. Isso significava que eu estava sozinha nessa. Eu não tinha a menor chance. Como eu iria conseguir chegar ao Rio de Janeiro sozinha? Eu estava cega! Eu não podia ler placas, mapas e nem tinha dinheiro para que alguém me ajudasse a chegar lá. Implorei para que o Coronel me levasse, mas ele simplesmente disse: — Sem chances. Se eu queria me livrar dele e do governo, iria ter que aprender a me virar sozinha lá fora, e isso ele estava disposto a fazer por mim, então me ensinou tudo o que sei. Pegou um mapa, traçou minha rota e me fez decorar cada passo do caminho. Sair de Brasília seria fácil, mas quando eu estivesse na estrada não teria pelo que me guiar. Então ele me ensinou a caminhar, me fazendo aprender a andar numa velocidade constante de 4 km/h, o que não é nada fácil. Arrumou um velho relógio digital para mim que apitava a cada hora e assim eu poderia calcular quantos quilômetros eu tinha andado.  Eu sabia que horas deveria começar a andar todos os dias, quantas horas precisava andar, quantos quilômetros estava andando e quando ia encontrar bifurcações e por onde seguir. Às quatro da tarde eu deveria parar para encontrar abrigo antes do sol se pôr. Não dava para fazer muito à noite, neste horário eu era basicamente o que deveria ser desde o início, apenas uma menina cega. Não era um plano perfeito, muito menos preciso ou livre de erros, mas passamos um ano nos preparando para isso e eu saí de Brasília com uma semana de folga para completar minha jornada antes que o navio chegasse ao Rio.

Meu relógio apitou anunciando que já eram quatro horas da tarde. Ainda nenhum sinal de prédios à frente, mas eu não podia estar muito longe de Belo Horizonte. Andei mais um pouco até achar um velho barraco abandonado perto da estrada.  Tirei meu saco de dormir da mochila, tirei os óculos do rosto e as botas dos pés. Comi uma barrinha sem gosto, não porque queria, mas porque precisava, depois fiz uma breve oração, pedindo que Deus me desse as forças que já não tinha mais e me deitei para dormir. Tenho certeza de que não se passaram nem cinco minutos antes que eu pegasse no sono. No dia seguinte o relógio apitava, me avisando que já eram sete horas. Sentia cada ligamento do meu corpo doer enquanto me mexia, mas já devia estar acostumada, sempre que paro para descansar me sinto ainda pior no dia seguinte. Ainda tinha uma hora livre antes de ter que começar a andar de novo, então decidi dar uma vasculhada pelo barraco, ver se achava algo útil. A minúscula cozinha fedia, como se um bicho tivesse morrido ali dentro, o que provavelmente era verdade. Mesmo assim comecei a abrir os armários, à procura de alguma comida com gosto para variar um pouco. Não achei nada nos armários, mas ao abrir a geladeira tive uma feliz surpresa, e não foi o cheiro fétido que saia de dentro dela. Achei uma lata. De quê? Não faço ideia, mas essas comidas enlatadas demoram anos para estragar, então mesmo que esteja vencida, não estou nem aí. Abri e fechei gavetas até encontrar um abridor. Quando terminei de assassinar a lata e a aproximei do meu nariz, senti um cheiro único, maravilhoso, que não sentia há muito tempo. Feijão! Não fiz questão nem de procurar por uma colher, simplesmente virei a lata na boca, apreciando cada grãozinho. Você provavelmente não iria achar tão gostoso assim, mas depois de passar semanas comendo barrinhas sabor isopor, aquilo ali era um manjar dos deuses! Meu estômago reclamava, depois de tanto tempo sem receber comida de verdade, e eu tive que ir correndo até o banheiro. Quando acabei, apertei a descarga, só por força do hábito, mas acabei me assustando ao ver que ela realmente funcionava. Água encanada?

Esse realmente deve ser um dia de sorte, comida e água dando sopa no mesmo local. Tirei as roupas imediatamente e liguei o chuveiro. Não tinha sabonete nem shampoo, mas eu podia sentir as camadas de poeira acumuladas sobre a minha pele se desintegrando na água gelada. Aproveitei para lavar minhas roupas e coloquei a calça jeans e camisa regata extras que tinha na minha mochila. Calcei as botas, coloquei minhas coisas de volta na mochila e os óculos no rosto. Fui para o lado de fora, andei até a estrada e esperei o relógio apitar. Depois de algumas horas andando eu nem sentia mais minhas pernas se moverem. Era como apertar o botão do piloto automático e deixar o corpo fazer o resto. Minha única preocupação era ignorar a dor. Já eram mais de onze horas da manhã quando comecei a pressentir algo esquisito. Agucei meus ouvidos e prestei bastante atenção. Pequenos gravetos se quebravam ao lado direito da estrada, seu ritmo parecia ser constante, me acompanhando. Eu espero que seja um bicho. Eu espero que seja um bicho. Eu espero que seja um bicho. Eu espero que seja um bicho. Eu espero que seja um bicho. Eu espero que seja um bicho. Eu espero que seja um bicho. Virei a cabeça lentamente para o lado. Na linha das árvores que margeavam a estrada pude ver claramente os contornos de um corpo humano enquanto ele se escondia atrás de um tronco. Apesar do sol de rachar, o meu corpo gelou. Eu tinha visto algumas pessoas nas ruas quando saí de Brasília, mas aqui estou completamente sozinha na estrada. O lado positivo é que ele é apenas um, e se quisesse me agredir provavelmente não estaria se escondendo. Mas isso não significa que ele não pode estar querendo me roubar ou algo do tipo, pode estar só esperando pelo momento certo para dar o bote. Não tenho quase nada, mas não posso deixar que alguém tire de mim o pouco que tenho. Continuo andando e decido não parar para comer, simplesmente tiro uma barrinha da bolsa e enfio na boca mal me dando ao trabalho de mastigar. A pessoa continua me acompanhando, e depois de algumas horas consigo ver sua silhueta com mais clareza…